Uma história verdadeira - Como, com criatividade e engenho, uma moeda virtual salvou o Brasil da bancarrota total, transformando-o num dos países mais poderosos do mundo

6 de agosto de 2011 ·


Texto traduzido daqui. No «Planet Money»

Por Chana Joffe-Walt
Jornalista e repórter radiofónica

Esta é uma história sobre como um economista brasileiro e os seus amigos deu a volta ao povo do Brasil para salvar o país de inflação galopante. Eles tinham um plano, louco e improvável, mas funcionou.

Há 20 e tal anos atrás, a taxa de inflação no Brasil atingiu 80% por mês. Nesse ritmo, se os ovos custavam $ 1 um certo dia, eles iriam custar $ 2 no mês seguinte. Se mantivessem este ritmo por um ano, os ovos chegariam aos $ 1.000.

Na prática, isso significou que as lojas tinham que mudar os seus preços todos os dias. O empregado no supermercado andaria pelos corredores colocando adesivos dos novos preços da comida. Os compradores corriam à frente dele, para que pudessem comprar os seus alimentos aos preço do dia anterior.

O problema retornou ao acontecido na década de 1950, quando o governo imprimiu dinheiro para construir a nova capital, Brasília. Na década de 1980, o padrão de inflação estava em vigor e era o mesmo de 30 anos antes.

Foi algo como isto:

1. Um novo presidente chega com um novo plano.
2. O Presidente congela preços e / ou contas bancárias.
3. O Presidente falha.
4. O Presidente vai a votos novamente ou dão-lhe o «impeachment.»
5. Repetir.
6. Assim se formou a ditadura, que também caiu.

Esta série de planos conseguiu repetidamente apenas uma coisa: convencer todos os brasileiros que o governo era incapaz de controlar a inflação.

Havia mais uma opção que, então, ninguém conhecia. Foi idealizado por quatro jovens economistas da Universidade Católica no Rio de Janeiro. A única razão pela qual eles entraram em cena [era agora ou nunca] é porque, em 1992, foi nomeado um novo ministro das Finanças do governo brasileiro, que não sabia nada sobre economia. Assim, o ministro chamou o jovem Edmar Bacha, o economista que é o herói da nossa história.

O ministro disse: 'Bem, eu acabei de ser nomeado ministro das Finanças. Você sabe que eu não sei de economia, então por favor, venha ao meu encontro em Brasília amanhã'", conta Bacha. "Eu estava apavorado." Bacha esperava por esta chamada há muitos anos.

Ele e três amigos economistas estavam a estudar a inflação brasileira, uma vez que eram estudantes de pós-graduação - eram quatro  jovens a reclamarem uns com os outros sobre como ninguém sabia como consertar este assunto tão grave. E agora estavam com o governo a dizer-lhes: "Muito bem, façam do vosso jeito." Bacha depois de falar com o ministro foi convidado para conhecer o Presidente de então do Brasil.

"Eu pedi um autógrafo para os meus filhos", diz Bacha. Então o Presidente escreveu para as crianças Bacha uma nota que dizia: "Por favor, digam ao vosso pai para trabalhar rápido em benefício do país."

Os quatro amigos começaram a explicar a sua ideia, assim: Você tem que desacelerar a criação de dinheiro. Mas, tão importante, você tem que estabilizar a fé das pessoas no próprio dinheiro. As pessoas têm que ser levadas a pensar que o dinheiro irá realizar o seu próprio valor.

Os quatro economistas queriam criar uma nova moeda que fosse estável, segura e confiável. Havia um único problema: esta moeda não seria verdadeira. Sem moedas, sem notas, sem contas. Era falsa. Era virtual.

«Chamámos-lhe uma «Unidade de Valor Real» - UVR», diz Bacha."Era virtual; ela não existia de facto".

As pessoas ainda tinham e usavam a moeda existente, o «cruzado». Mas tudo seria listado e marcado em UVrs, a moeda falsa. Os seus salários seriam listada em UVRs. Impostos foram em UVRs. Todos os preços foram listados em UVRs. E os UVRs mantiveram-se estáveis ​- o que mudou foi o número de «cruzados» que cada UCR valia.

Digamos, por exemplo, que o leite custava 1 UVR. Em um determinado dia, um URV podia ter o valor de 10 cruzeiros. Um mês depois, o leite continuaria ainda a custar apenas 1 UVR. Mas o UVR podia ter um valor de 20 cruzados. Era tudo movimentado na moeda virtual.

A ideia era simples: que as pessoas começassem a pensar em UVRs e não em cruzados e parassem de esperar que os preços estavam sempre a subir.

"Não entendemos o que era", conta Maria Leopoldina Bierrenbach, uma dona de casa de São Paulo. "Eu costumava dizer que era uma fantasia, porque não era real."

E assim, as pessoas começaram a usar os UVRs virtuais. E depois de alguns meses desta «fantasia», constataram que os preços em UVRs foram ficando estáveis, até estabilizarem completamente​​. Uma vez isso acontecido, Bacha e os seus amigos poderiam declarar que a moeda virtual «Unidade de Valor Real» - UVR» se tornaria na moeda real do país. Seria chamada de «real». Até hoje! É a moeda de uma das economias mais pujantes do planeta.

"Todo mundo começou a receber os seus salários e pagar por todos os preços, na nova moeda, que é o «real»", diz Bacha. "Esse foi o truque."

No dia em que o governo lançou o «real», diz Bacha, um amigo jornalista perguntou-lhe: "Professor, você jura que a inflação vai acabar amanhã?" - "Sim, eu juro." disse Bacha.

E, basicamente, a inflação acabou, e a economia do país se virou. Nos anos que se seguiram, o Brasil tornou-se um grande exportador, e 30 milhões de pessoas saíram da pobreza.

Minhas notas pessoais

1 - O Ministro das Finanças [no Brasil diz-se 'Ministro da Fazenda'] mencionado na história e que confessou nada saber de economia, era Fernando Henrique Cardoso. Garantiu assim a Presidência do Brasil em 1994.

2 - O Presidente mencionado na história e que deu o autógrafo aos filhos de Bacha era Fernando Collor, que herdou o verdadeiro desastre da economia de José Sarney, sendo, no entanto, a este último a quem os brasileiros devem a democracia em que felizmente vivem. Foram Tancredo Neves [que viveu apenas 1 mês como Presidente, devido ao seu súbito falecimento] e sobretudo, José Sarney quem reconduziram o país ao regime democrático, depois de 20 anos de ditadura militar.

3 - Ironias da vida: Fernando Collor é mais recordado pelo «impeachment» que sofreu 2 anos depois de tomar posse como Presidente do Brasil, em Outubro de 1992 e são pouco os que se lembram que foi no seu governo que a inflação de 1.200% ao ano (herdada da presidência anterior) passou a nível quase «zero», conforme nos é contada na história acima. Porque teve um ministro da Fazenda absolutamente crucial: Fernando Henrique Cardoso. 

4 - Para quem anda no meio astrológico, vale a pena analisar o mapa do Brasil para esses anos:

Clicar para ampliar

4 - Nessa época, há 20 e tal anos, Saturno entrou em Aquário, focalizando-se em assuntos revolucionários e modernos: veja-se o que a história conta, com a tal moeda virtual, o IVR. Mas de forma organizada e metódica, mantendo-se o cruzado. Mas, mais curioso em termos astrológicos, foi o ingresso de Saturno na Casa XII do Brasil - em astrologia mundana (e não só) esta casa trata dos assuntos das muito grandes organizações. Estamos todos de acordo que o governo de um país é uma muito grande organização? Além disso, fazia excelentes aspectos à Lua e a Júpiter natais do Brasil, forçando todos a se organizarem através da sua quadratura a Saturno natal [mais tarde, o «impeachment» presidencial] que manteve rédeas curtas no cenário inovador que surgia. Úrano transitava pela Casa XI do Brasil (o seu povo), mas em Capricórnio, indicando coisas novas, mas de forma organizada. O FMI nunca chegou a intervir. Este Úrano fazia um excelente trígono ao Sol do Brasil, dando imensa vitalidade a esta originalidade. Quem quiser que veja os outros transitos.

.

13 comentários:

Astrid Annabelle disse...
6 de agosto de 2011 às 13:31  

Bom dia meu querido António!
Como brasileira lhe agradeço de coração por ter conhecido hoje, aqui e agora uma história fantástica.
Vivi tudo o que o texto conta... os dias de inflação violenta. As pessoas ganhando $$$ em aplicações relâmpagos. As corridas aos supermercados. O caos. A perda. O desespero do povo por conta de uma grande insegurança. E tudo isso sem saber de nada do que rolava nos bastidores do governo.
Minha vida pessoal nessa época igualmente foi um caos, assim como a de muitas pessoas.
Ler, portanto esta matéria hoje foi um resgate de uma lembrança guardada em baixo do tapete sem a devida compreensão.

Um beijo muito agradecido e tenha um final de semana gostoso.
Astrid Annabelle

António Rosa disse...
6 de agosto de 2011 às 13:57  

Querida Astrid,

Fiquei muito feliz com o seu comentário. Só por isso, valeu a pena as muitas hora que dediquei a este post.

Assim que li o artigo original, soube imediatamente que tinha todos os ingredientes para valer a pena dedicar várias horas de trabalho: primeiro traduzir, depois dar um «tom» brasileiro à minha tradução; depois investigar a época, em termos históricos, Presidentes, Ministro da Fazenda, etc; a seguir fazer o enquadramento histórico a seguir a narrativa e finalizando com uma nota astrológica do mapa do Brasil de então.

Fique feliz que tivesse gostado, pois esta história é exemplar de como funcionam as egrógoras editoriais. Deve ter reparado nesta frase da jornalista:

«A idéia era simples: que as pessoas começassem a pensar em UVRs e não em cruzados e parassem de esperar que os preços estavam sempre a subir.»

Imagine só, Astrid, há mais de 20 anos, quando não se falava tanto no famoso «Segredo», já se punha isso em prática e de forma gigantesca: foi todo um povo que começou aos poucos, a usar o «pensamento positivo» e a «co-criarem» um futuro novo.

Não falei isto no post para não induzir as pessoas, pois pretendi que os possíveis leitores chegassem sozinhas a estas conclusões. Sobretudo para perceber se ainda andam na maionese...

É o «case» de um povo com milhões de pessoas. O seu povo, Astrid. Mas, também meu, do coração.

Fico feliz em saber que fez o resgate adequado a um assunto tão delicado.

Só por isso, valeu a pena o post!

Muitos beijos

António

António Rosa disse...
6 de agosto de 2011 às 13:58  

Em vez de «egrógoras editoriais» eu queria dizer:

egrégoras espirituais.

:))))

Ma disse...
6 de agosto de 2011 às 17:35  

Adorei o artigo, apesar de na época ser muito novo.

Hoje sou da primeira geração de brasileiros que nasceu num país sem grandes crises ou problemas, e essas lembranças parecem tão distantes pro pessoa da nossa geração.

abs

Astrid Annabelle disse...
6 de agosto de 2011 às 20:34  

E eu agradeço novamente António... o seu comentário, agora!!!
Beijo grande.
Adorei mesmo o texto.
Astrid Annabelle

MARCELO DALLA disse...
7 de agosto de 2011 às 10:19  

OLá meu querido!!!!
Este post está fantástico, emociona todos os brasileiros que, como eu, viveram na pele essa história.
Lembro-me muito bem, fazia faculdade na época. Meus pais tinham que me enviar dinheiro semanalmente... a certa altura tive que me mudar de onde morava pois o aluguel duplicava a cada três meses. Uma loucura!

Depois de alguns planos falhos, veio este do Real. É tão viva essa memória... mas não conhecia a história verdadeira. Apenas me recordo de que quando foi lançado, o 1 real valia 1 dólar.

Hoje, mais de 20 anos depois, 1 dólar vale 1,5 real e está caindo...
Meu querido, na minha modesta opinião, vc se superou! Agradeço de coração!!!
grande abraço

António Rosa disse...
7 de agosto de 2011 às 11:16  

Ma

Então, aproveite muito o facto de pertencer à primeira geração que nasceu sem a crise. Empenhe-se a sério no seu país, na sua vida, em tudo o que de bom lhe acontece.

António Rosa disse...
7 de agosto de 2011 às 11:28  

Querido Mrcelo

O que disse à Astrid, também serve para si (e para todos).

Quanto ao facto de hoje em dia o «real» ter a cotação de 1,5 dólar. E vai cair ainda mais.

É tudo virtual e em simultâneo, tudo falso e hipócrita no que às finanças do mundo vivemos.

Imagine só que o Obama (partido democrata) conseguiu à tangente que o Congresso (dominado pelos republicanos aprovasse a lei que autoriza o aumento da dívida do país ao estrangeiro. A troco de quê? De cortes que Obama terá que fazer no Plano Nacional de Saúde americano.

É tudo virtual e falso.

Apesar da grande crise da economia e consequentemente da moeda americana, a verdade é que as agências de notificação (também elas americanas) continuam a classificar na 1ª categoria: AAA. Só uma agência baixou para AA+.

Por muito menos, essas mesmas agências puseram Portugal na categoria «lixo».

E o Brasil está na categoria DD. A que propósito? Só mesmo para o real ficar desvalorizado em relação ao dólar. O mesmo acontece com todas as moedas do mundo, incluindo o Euro.

Por outro lado o Brasil pertence ao 5 BRICS, os países emergentes que irão dominar o futuro deste planeta e, claro, os americanos não gostam dessa ideia.

Este é o cenário geral do planeta onde vivemos.

Muito agradecido pelo seu belo comentário.

Grande abraço.

MARCELO DALLA disse...
7 de agosto de 2011 às 12:21  

Pois é, meu amigo...
este sistema financeiro fraudulento está com os dias contados.
Aguardemos para ver o que acontece!!!!
Post partilhado! ;)

Iara Rodrigues da Cunha disse...
7 de agosto de 2011 às 16:43  

Bom dia António, tenha um excelente domingo! Gratíssima pela postagem...matéria excelente.Sinceramente, eu desconhecia muita coisa que você relatou e foi bom tomar conhecimento. Passei nessa época, como todo mundo, um período muito difícil em vários aspectos da minha vida,mas foi bom resgatar essas lembranças e vivenciar aquelas situações com uma nova visão. O tempo é um mestre e nos ensina a ter paciência e compreensão.

um abraço fraterno
Iara

Soraia disse...
7 de agosto de 2011 às 17:12  

Olá António.

Como foi dito no início de seu artigo sobre "país poderoso".
Se para um país ser chamado de “poderoso”, o povo brasileiro tem de conviver com a violência, o caos na saúde pública, a má conservação de rodovias, a falta de caráter de alguns políticos e etc, é preferível ser menos “poderoso” e termos nossos direitos como cidadãos mais respeitados.

Grande abraço.

António Rosa disse...
7 de agosto de 2011 às 17:19  

Iara,

Assim que li o texto pensei em toros aquela experiência terrível. E já cá vão 3 testemunhos impressionantes.

Muito obrigado.

É o resgate das memórias que não compreendiam as ocorrências.

Abraço.

António Rosa disse...
7 de agosto de 2011 às 17:22  

Soraia,

As coisas podem e devem coexistir ao mesmo tempo. A Europa, a América e a China são exemplos de virtude? Não, não são. E não é por isso que o mundo avança.

Mas que Brasil deu um enorme passo em frente, isso deu.

6 de agosto de 2011

Uma história verdadeira - Como, com criatividade e engenho, uma moeda virtual salvou o Brasil da bancarrota total, transformando-o num dos países mais poderosos do mundo


Texto traduzido daqui. No «Planet Money»

Por Chana Joffe-Walt
Jornalista e repórter radiofónica

Esta é uma história sobre como um economista brasileiro e os seus amigos deu a volta ao povo do Brasil para salvar o país de inflação galopante. Eles tinham um plano, louco e improvável, mas funcionou.

Há 20 e tal anos atrás, a taxa de inflação no Brasil atingiu 80% por mês. Nesse ritmo, se os ovos custavam $ 1 um certo dia, eles iriam custar $ 2 no mês seguinte. Se mantivessem este ritmo por um ano, os ovos chegariam aos $ 1.000.

Na prática, isso significou que as lojas tinham que mudar os seus preços todos os dias. O empregado no supermercado andaria pelos corredores colocando adesivos dos novos preços da comida. Os compradores corriam à frente dele, para que pudessem comprar os seus alimentos aos preço do dia anterior.

O problema retornou ao acontecido na década de 1950, quando o governo imprimiu dinheiro para construir a nova capital, Brasília. Na década de 1980, o padrão de inflação estava em vigor e era o mesmo de 30 anos antes.

Foi algo como isto:

1. Um novo presidente chega com um novo plano.
2. O Presidente congela preços e / ou contas bancárias.
3. O Presidente falha.
4. O Presidente vai a votos novamente ou dão-lhe o «impeachment.»
5. Repetir.
6. Assim se formou a ditadura, que também caiu.

Esta série de planos conseguiu repetidamente apenas uma coisa: convencer todos os brasileiros que o governo era incapaz de controlar a inflação.

Havia mais uma opção que, então, ninguém conhecia. Foi idealizado por quatro jovens economistas da Universidade Católica no Rio de Janeiro. A única razão pela qual eles entraram em cena [era agora ou nunca] é porque, em 1992, foi nomeado um novo ministro das Finanças do governo brasileiro, que não sabia nada sobre economia. Assim, o ministro chamou o jovem Edmar Bacha, o economista que é o herói da nossa história.

O ministro disse: 'Bem, eu acabei de ser nomeado ministro das Finanças. Você sabe que eu não sei de economia, então por favor, venha ao meu encontro em Brasília amanhã'", conta Bacha. "Eu estava apavorado." Bacha esperava por esta chamada há muitos anos.

Ele e três amigos economistas estavam a estudar a inflação brasileira, uma vez que eram estudantes de pós-graduação - eram quatro  jovens a reclamarem uns com os outros sobre como ninguém sabia como consertar este assunto tão grave. E agora estavam com o governo a dizer-lhes: "Muito bem, façam do vosso jeito." Bacha depois de falar com o ministro foi convidado para conhecer o Presidente de então do Brasil.

"Eu pedi um autógrafo para os meus filhos", diz Bacha. Então o Presidente escreveu para as crianças Bacha uma nota que dizia: "Por favor, digam ao vosso pai para trabalhar rápido em benefício do país."

Os quatro amigos começaram a explicar a sua ideia, assim: Você tem que desacelerar a criação de dinheiro. Mas, tão importante, você tem que estabilizar a fé das pessoas no próprio dinheiro. As pessoas têm que ser levadas a pensar que o dinheiro irá realizar o seu próprio valor.

Os quatro economistas queriam criar uma nova moeda que fosse estável, segura e confiável. Havia um único problema: esta moeda não seria verdadeira. Sem moedas, sem notas, sem contas. Era falsa. Era virtual.

«Chamámos-lhe uma «Unidade de Valor Real» - UVR», diz Bacha."Era virtual; ela não existia de facto".

As pessoas ainda tinham e usavam a moeda existente, o «cruzado». Mas tudo seria listado e marcado em UVrs, a moeda falsa. Os seus salários seriam listada em UVRs. Impostos foram em UVRs. Todos os preços foram listados em UVRs. E os UVRs mantiveram-se estáveis ​- o que mudou foi o número de «cruzados» que cada UCR valia.

Digamos, por exemplo, que o leite custava 1 UVR. Em um determinado dia, um URV podia ter o valor de 10 cruzeiros. Um mês depois, o leite continuaria ainda a custar apenas 1 UVR. Mas o UVR podia ter um valor de 20 cruzados. Era tudo movimentado na moeda virtual.

A ideia era simples: que as pessoas começassem a pensar em UVRs e não em cruzados e parassem de esperar que os preços estavam sempre a subir.

"Não entendemos o que era", conta Maria Leopoldina Bierrenbach, uma dona de casa de São Paulo. "Eu costumava dizer que era uma fantasia, porque não era real."

E assim, as pessoas começaram a usar os UVRs virtuais. E depois de alguns meses desta «fantasia», constataram que os preços em UVRs foram ficando estáveis, até estabilizarem completamente​​. Uma vez isso acontecido, Bacha e os seus amigos poderiam declarar que a moeda virtual «Unidade de Valor Real» - UVR» se tornaria na moeda real do país. Seria chamada de «real». Até hoje! É a moeda de uma das economias mais pujantes do planeta.

"Todo mundo começou a receber os seus salários e pagar por todos os preços, na nova moeda, que é o «real»", diz Bacha. "Esse foi o truque."

No dia em que o governo lançou o «real», diz Bacha, um amigo jornalista perguntou-lhe: "Professor, você jura que a inflação vai acabar amanhã?" - "Sim, eu juro." disse Bacha.

E, basicamente, a inflação acabou, e a economia do país se virou. Nos anos que se seguiram, o Brasil tornou-se um grande exportador, e 30 milhões de pessoas saíram da pobreza.

Minhas notas pessoais

1 - O Ministro das Finanças [no Brasil diz-se 'Ministro da Fazenda'] mencionado na história e que confessou nada saber de economia, era Fernando Henrique Cardoso. Garantiu assim a Presidência do Brasil em 1994.

2 - O Presidente mencionado na história e que deu o autógrafo aos filhos de Bacha era Fernando Collor, que herdou o verdadeiro desastre da economia de José Sarney, sendo, no entanto, a este último a quem os brasileiros devem a democracia em que felizmente vivem. Foram Tancredo Neves [que viveu apenas 1 mês como Presidente, devido ao seu súbito falecimento] e sobretudo, José Sarney quem reconduziram o país ao regime democrático, depois de 20 anos de ditadura militar.

3 - Ironias da vida: Fernando Collor é mais recordado pelo «impeachment» que sofreu 2 anos depois de tomar posse como Presidente do Brasil, em Outubro de 1992 e são pouco os que se lembram que foi no seu governo que a inflação de 1.200% ao ano (herdada da presidência anterior) passou a nível quase «zero», conforme nos é contada na história acima. Porque teve um ministro da Fazenda absolutamente crucial: Fernando Henrique Cardoso. 

4 - Para quem anda no meio astrológico, vale a pena analisar o mapa do Brasil para esses anos:

Clicar para ampliar

4 - Nessa época, há 20 e tal anos, Saturno entrou em Aquário, focalizando-se em assuntos revolucionários e modernos: veja-se o que a história conta, com a tal moeda virtual, o IVR. Mas de forma organizada e metódica, mantendo-se o cruzado. Mas, mais curioso em termos astrológicos, foi o ingresso de Saturno na Casa XII do Brasil - em astrologia mundana (e não só) esta casa trata dos assuntos das muito grandes organizações. Estamos todos de acordo que o governo de um país é uma muito grande organização? Além disso, fazia excelentes aspectos à Lua e a Júpiter natais do Brasil, forçando todos a se organizarem através da sua quadratura a Saturno natal [mais tarde, o «impeachment» presidencial] que manteve rédeas curtas no cenário inovador que surgia. Úrano transitava pela Casa XI do Brasil (o seu povo), mas em Capricórnio, indicando coisas novas, mas de forma organizada. O FMI nunca chegou a intervir. Este Úrano fazia um excelente trígono ao Sol do Brasil, dando imensa vitalidade a esta originalidade. Quem quiser que veja os outros transitos.

.

13 comentários:

Astrid Annabelle disse...

Bom dia meu querido António!
Como brasileira lhe agradeço de coração por ter conhecido hoje, aqui e agora uma história fantástica.
Vivi tudo o que o texto conta... os dias de inflação violenta. As pessoas ganhando $$$ em aplicações relâmpagos. As corridas aos supermercados. O caos. A perda. O desespero do povo por conta de uma grande insegurança. E tudo isso sem saber de nada do que rolava nos bastidores do governo.
Minha vida pessoal nessa época igualmente foi um caos, assim como a de muitas pessoas.
Ler, portanto esta matéria hoje foi um resgate de uma lembrança guardada em baixo do tapete sem a devida compreensão.

Um beijo muito agradecido e tenha um final de semana gostoso.
Astrid Annabelle

António Rosa disse...

Querida Astrid,

Fiquei muito feliz com o seu comentário. Só por isso, valeu a pena as muitas hora que dediquei a este post.

Assim que li o artigo original, soube imediatamente que tinha todos os ingredientes para valer a pena dedicar várias horas de trabalho: primeiro traduzir, depois dar um «tom» brasileiro à minha tradução; depois investigar a época, em termos históricos, Presidentes, Ministro da Fazenda, etc; a seguir fazer o enquadramento histórico a seguir a narrativa e finalizando com uma nota astrológica do mapa do Brasil de então.

Fique feliz que tivesse gostado, pois esta história é exemplar de como funcionam as egrógoras editoriais. Deve ter reparado nesta frase da jornalista:

«A idéia era simples: que as pessoas começassem a pensar em UVRs e não em cruzados e parassem de esperar que os preços estavam sempre a subir.»

Imagine só, Astrid, há mais de 20 anos, quando não se falava tanto no famoso «Segredo», já se punha isso em prática e de forma gigantesca: foi todo um povo que começou aos poucos, a usar o «pensamento positivo» e a «co-criarem» um futuro novo.

Não falei isto no post para não induzir as pessoas, pois pretendi que os possíveis leitores chegassem sozinhas a estas conclusões. Sobretudo para perceber se ainda andam na maionese...

É o «case» de um povo com milhões de pessoas. O seu povo, Astrid. Mas, também meu, do coração.

Fico feliz em saber que fez o resgate adequado a um assunto tão delicado.

Só por isso, valeu a pena o post!

Muitos beijos

António

António Rosa disse...

Em vez de «egrógoras editoriais» eu queria dizer:

egrégoras espirituais.

:))))

Ma disse...

Adorei o artigo, apesar de na época ser muito novo.

Hoje sou da primeira geração de brasileiros que nasceu num país sem grandes crises ou problemas, e essas lembranças parecem tão distantes pro pessoa da nossa geração.

abs

Astrid Annabelle disse...

E eu agradeço novamente António... o seu comentário, agora!!!
Beijo grande.
Adorei mesmo o texto.
Astrid Annabelle

MARCELO DALLA disse...

OLá meu querido!!!!
Este post está fantástico, emociona todos os brasileiros que, como eu, viveram na pele essa história.
Lembro-me muito bem, fazia faculdade na época. Meus pais tinham que me enviar dinheiro semanalmente... a certa altura tive que me mudar de onde morava pois o aluguel duplicava a cada três meses. Uma loucura!

Depois de alguns planos falhos, veio este do Real. É tão viva essa memória... mas não conhecia a história verdadeira. Apenas me recordo de que quando foi lançado, o 1 real valia 1 dólar.

Hoje, mais de 20 anos depois, 1 dólar vale 1,5 real e está caindo...
Meu querido, na minha modesta opinião, vc se superou! Agradeço de coração!!!
grande abraço

António Rosa disse...

Ma

Então, aproveite muito o facto de pertencer à primeira geração que nasceu sem a crise. Empenhe-se a sério no seu país, na sua vida, em tudo o que de bom lhe acontece.

António Rosa disse...

Querido Mrcelo

O que disse à Astrid, também serve para si (e para todos).

Quanto ao facto de hoje em dia o «real» ter a cotação de 1,5 dólar. E vai cair ainda mais.

É tudo virtual e em simultâneo, tudo falso e hipócrita no que às finanças do mundo vivemos.

Imagine só que o Obama (partido democrata) conseguiu à tangente que o Congresso (dominado pelos republicanos aprovasse a lei que autoriza o aumento da dívida do país ao estrangeiro. A troco de quê? De cortes que Obama terá que fazer no Plano Nacional de Saúde americano.

É tudo virtual e falso.

Apesar da grande crise da economia e consequentemente da moeda americana, a verdade é que as agências de notificação (também elas americanas) continuam a classificar na 1ª categoria: AAA. Só uma agência baixou para AA+.

Por muito menos, essas mesmas agências puseram Portugal na categoria «lixo».

E o Brasil está na categoria DD. A que propósito? Só mesmo para o real ficar desvalorizado em relação ao dólar. O mesmo acontece com todas as moedas do mundo, incluindo o Euro.

Por outro lado o Brasil pertence ao 5 BRICS, os países emergentes que irão dominar o futuro deste planeta e, claro, os americanos não gostam dessa ideia.

Este é o cenário geral do planeta onde vivemos.

Muito agradecido pelo seu belo comentário.

Grande abraço.

MARCELO DALLA disse...

Pois é, meu amigo...
este sistema financeiro fraudulento está com os dias contados.
Aguardemos para ver o que acontece!!!!
Post partilhado! ;)

Iara Rodrigues da Cunha disse...

Bom dia António, tenha um excelente domingo! Gratíssima pela postagem...matéria excelente.Sinceramente, eu desconhecia muita coisa que você relatou e foi bom tomar conhecimento. Passei nessa época, como todo mundo, um período muito difícil em vários aspectos da minha vida,mas foi bom resgatar essas lembranças e vivenciar aquelas situações com uma nova visão. O tempo é um mestre e nos ensina a ter paciência e compreensão.

um abraço fraterno
Iara

Soraia disse...

Olá António.

Como foi dito no início de seu artigo sobre "país poderoso".
Se para um país ser chamado de “poderoso”, o povo brasileiro tem de conviver com a violência, o caos na saúde pública, a má conservação de rodovias, a falta de caráter de alguns políticos e etc, é preferível ser menos “poderoso” e termos nossos direitos como cidadãos mais respeitados.

Grande abraço.

António Rosa disse...

Iara,

Assim que li o texto pensei em toros aquela experiência terrível. E já cá vão 3 testemunhos impressionantes.

Muito obrigado.

É o resgate das memórias que não compreendiam as ocorrências.

Abraço.

António Rosa disse...

Soraia,

As coisas podem e devem coexistir ao mesmo tempo. A Europa, a América e a China são exemplos de virtude? Não, não são. E não é por isso que o mundo avança.

Mas que Brasil deu um enorme passo em frente, isso deu.

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